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A revolução silenciosa das chinesas que trocaram o romance real pelo virtual

O crescimento dos jogos otome revela como a busca por valor emocional está vencendo a pressão pelo casamento tradicional na China

A revolução silenciosa das chinesas que trocaram o romance real pelo virtual

O mercado de entretenimento na China vive uma transformação estrutural movida pela “She-Economy”, um ecossistema econômico que gira em torno do poder de compra feminino. O gênero otome — simuladores de romance — saltou de um nicho cultural para uma indústria de 1,3 bilhão de dólares, o que equivale a cerca de R$ 7,5 bilhões de reais. Com 300 milhões de jogadoras, o sucesso de títulos como Love and Deepspace mostra que o suporte emocional vindo de algoritmos e inteligência artificial está ocupando o espaço que antes pertencia aos relacionamentos interpessoais tradicionais no cotidiano das jovens urbanas.

Essa mudança de comportamento é centrada no conceito de “valor emocional”. Em uma sociedade competitiva com jornadas de trabalho exaustivas, as mulheres buscam um afeto que seja previsível e incondicional. Diferente dos namoros reais, que exigem um esforço mental constante para mediar conflitos, lidar com o ego do outro ou resolver brigas, o parceiro virtual oferece positividade ininterrupta. Para a jogadora, o personagem existe exclusivamente para oferecer apoio, eliminando o peso emocional e o desgaste que a convivência humana costuma gerar em ambientes de alto estresse.

O perfil socioeconômico das usuárias também evoluiu: a maioria é composta por mulheres financeiramente independentes que ocupam cargos de prestígio. Essa autonomia reflete diretamente na construção das heroínas dos jogos. Se antes o padrão era a “donzela em perigo”, hoje as protagonistas são médicas, advogadas e caçadoras de elite. Essa representação de sucesso profissional gera uma identificação imediata, fazendo com que o jogo funcione como uma validação da força e da agência da mulher, espelhando sua realidade para fora das telas.

A tecnologia 3D de alta fidelidade foi o diferencial técnico que permitiu uma imersão sem precedentes. Gráficos que simulam expressões faciais quase reais, batimentos cardíacos e reações ao toque da usuária reduziram a barreira entre o código e o coração. Através de chamadas de voz e mensagens diárias que simulam uma rotina comum, cria-se a “Dinâmica Eu-Tu”, onde a interatividade constante remove a frieza do digital. Para muitas mulheres, o parceiro virtual deixa de ser um software e passa a ser uma presença tangível que ajuda a regular o estresse e a autoestima.

Um dos pontos mais profundos desse mercado é o fenômeno das “Cos-commissions”, onde o afeto salta do digital para o mundo físico. Jogadoras contratam cosplayers profissionais para personificarem seus namorados virtuais em encontros reais. Por cerca de 320 dólares — aproximadamente R$ 1.850 — é possível viver um dia de romance físico controlado, com jantar e passeios de mãos dadas. Ajudando a movimentar ainda mais o “She-Economy”, a maioria dessas profissionais são mulheres, garantindo também um ambiente de intimidade seguro e livre de riscos de assédio ou julgamentos que elas associam aos homens reais.

Esses encontros de cosplay são tratados como investimentos diretos em saúde mental. As profissionais não apenas se vestem como os personagens, elas vão muito além e atuam como um suporte terapêutico: escrevem cartas à mão, ouvem traumas e oferecem um apoio para a solidão das grandes metrópoles. O objetivo é materializar a segurança do jogo em uma experiência física palpável, totalmente focada na satisfação da cliente. É uma forma de obter o benefício da companhia física sem o custo social de um relacionamento que envolva as expectativas de uma família ou do mercado de casamentos.

Sociologicamente, esses jogos garantem às mulheres o “direito ao olhar”, invertendo a lógica histórica da objetificação feminina. O marketing desses títulos foca no desejo e na estética masculina para capturar o “female gaze”, tratando as fantasias das mulheres com a mesma importância dada ao público masculino em outros gêneros. Essa autonomia sexual e afetiva permite que as mulheres explorem seus desejos em um ambiente controlado, onde elas detêm o comando narrativo e emocional, decidindo exatamente como e quando querem interagir com o objeto de seu afeto.

A comunidade exerce um papel fundamental na manutenção desse ecossistema e na cura coletiva. O que começa como uma experiência individual no celular vira uma rede de solidariedade em plataformas como Weibo, a maior rede social do país. As fãs organizam eventos massivos e celebram aniversários dos personagens, criando espaços de proteção onde compartilham desafios reais da vida adulta. O jogo torna-se o ponto de partida para uma união feminina que combate o isolamento social e a depressão, oferecendo uma rede de apoio que a sociedade tradicional muitas vezes ignora.

O consumo de mercadorias físicas também serve para tornar o parceiro virtual “real” dentro de casa. As fãs investem fortunas em perfumes feitos para materializar o cheiro dos personagens, roupas e itens de decoração. Ao cercar-se desses objetos, a jogadora reforça a presença do vínculo emocional no seu espaço privado, transformando o virtual em algo que ela pode tocar e sentir no dia a dia. Esse comportamento demonstra que a relação parassocial é alimentada por estímulos sensoriais que ajudam a mitigar a falta de um contato físico permanente e humano.

O mercado já atingiu a maturidade e busca novos saltos para evitar a estagnação narrativa. A introdução de personagens com personalidades complexas e até “vilanescas”, como Sylus, mostra que o público está cansado de heróis perfeitos. Elas demandam profundidade psicológica e histórias que desafiem o senso comum. O futuro do setor aponta para o uso de realidade virtual e tecnologias táteis para tentar resolver a limitação da “intangibilidade”. O objetivo é que o toque digital seja sentido fisicamente, tornando a experiência cada vez mais indistinguível da realidade.

É necessário pontuar que todo esse fenômeno é o sintoma de uma sociedade quebrada. A preferência pelo virtual não nasce de um vazio, mas de um machismo estrutural tão enraizado que torna a convivência real exaustiva e, muitas vezes, violenta para as mulheres. Quando o mundo físico oferece desequilíbrio de poder, falta de apoio doméstico e pressões sociais desproporcionais, o simulador de romance aparece como a única alternativa onde elas não precisam lutar pelo básico. O refúgio no digital é, na verdade, uma denúncia da falência das relações interpessoais mediadas por normas patriarcais.

O mercado, percebendo essa ferida social, utiliza o capitalismo em sua forma mais agressiva para lucrar com a solidão feminina. Em vez de promover mudanças reais na lógica machista da sociedade, a indústria entrega “soluções” rasas e monetizáveis. As empresas vendem o alívio imediato através de microtransações e assinaturas, criando um ciclo de consumo onde o problema social, como o isolamento e o desamparo emocional, é mantido para que a “cura” virtual continue sendo vendida. É a comercialização do afeto como paliativo para uma estrutura social que se recusa a mudar.

Foto: AFP

Existe também uma crítica política e social embutida nessa escolha pelo virtual. Ao optar por simuladores, as mulheres chinesas estão enviando um recado claro ao sistema tradicional de família, que muitas vezes exige o sacrifício da carreira feminina em prol do matrimônio. O jogo oferece o bônus do romance com carinho, validação e companhia, sem o ônus da servidão doméstica ou da perda de liberdade pessoal. É uma forma de resistência silenciosa através do consumo, colocando o prazer e a autonomia individual acima das obrigações patriarcais.

O impacto dessa tendência redefine o que as mulheres entendem por reciprocidade. Ao conviverem com personagens que as respeitam e as incentivam incondicionalmente, as jogadoras tornam-se muito mais críticas em relação aos parceiros reais. O padrão de exigência sobe, e a tolerância para comportamentos tóxicos diminui. O simulador de romance acaba funcionando como um laboratório emocional onde a mulher aprende a reconhecer o valor que merece receber, o que acaba influenciando suas decisões em todas as outras esferas da vida social.

Tudo isso revela que a saúde emocional agora é prioridade máxima. Se o mercado de casamentos e as interações humanas comuns não oferecem segurança e respeito, a tecnologia preenche essa lacuna com eficiência. A revolução liderada pelas chinesas mostra que elas não estão fugindo da realidade, mas decidindo ativamente onde investir sua energia afetiva. O amor digital é deliberado, seguro e funciona como um manifesto de independência de uma geração que não aceita mais nada menos do que a satisfação completa de seus desejos.

Essa realidade não se restringe às fronteiras chinesas; o que vemos é a expansão de um modelo de consumo que se alimenta de uma ferida global. Em um mundo onde o machismo estrutural ainda dita o tom das relações, o esgotamento das mulheres tornou-se um ativo valioso para as Big Techs. A tendência é que, enquanto as estruturas sociais não evoluírem para oferecer paridade e respeito genuíno, a tendência é que o capital continue refinando suas ferramentas de intimidade artificial. Essa revolução silenciosa deixa um aviso claro: as mulheres não estão mais dispostas a aceitar o mínimo em nome da tradição. Se o mundo físico não se adaptar às necessidades de uma geração que agora conhece o seu próprio valor, o amor, em toda a sua complexidade e imperfeição, continuará perdendo espaço para o conforto seguro de um simulador de romance (ou movimentos cada vez mais que afastam as mulheres, como acontece hoje na Coreia com o 4B e que será tema de um outro artigo).

E você, o que acha dessa nova forma de se relacionar? Acredita que o afeto virtual pode realmente suprir a carência deixada por uma sociedade desigual? Deixe sua opinião nos comentários!

Este é um artigo opinativo e não reflete, necessariamente, a opinião da redação ou do portal Asia ON sobre o tema. / Fontes: (1) (2) | Fotos: Reprodução/Love and Deepspace

Dani Almeida é jornalista (MTB 0095360/SP) e estudou Ciências Sociais na UNIFESP. Atua como editora no Portal Asia ON e na Tune Wav, é colunista no Portal IT Life e redatora.

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