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Movimento 4B e a geração de mulheres que decidiu dizer não

Surgido na Coreia do Sul, o movimento rejeita casamento, maternidade, namoro e sexo heterossexual como resposta à desigualdade de gênero e à violência na sociedade sul-coreana.

Movimento 4B e a geração de mulheres que decidiu dizer não

Em novembro de 2024, um movimento feminista criado na Coreia do Sul voltou a ganhar destaque no debate público. Nas horas seguintes à vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, milhares de mulheres passaram a compartilhar vídeos, publicações e mensagens mencionando o chamado movimento 4B. No TikTok, conteúdos sobre o tema alcançaram milhões de visualizações. No Google, as buscas pelo termo registraram o maior pico daquele ano.

Para quem teve contato com o movimento pela primeira vez naquele momento, a proposta parecia ao mesmo tempo simples e radical. As participantes defendem quatro recusas: não ao casamento, não ao namoro, não ao sexo com homens e não à maternidade. Rapidamente, o 4B passou a ser descrito por apoiadoras como uma forma de resistência e por críticos como um exemplo de separatismo de gênero.

Captura de tela do Google Trends mostrando o aumento das pesquisas pelo termo “4B movement” em novembro de 2024.

A repercussão internacional, no entanto, deixou uma questão fundamental em segundo plano. Por que um movimento com essas características surgiu justamente na Coreia do Sul?

A resposta passa por mudanças profundas que vêm transformando a vida das mulheres sul-coreanas nas últimas décadas. Embora o país tenha se consolidado como uma das economias mais desenvolvidas da Ásia e apresente altos índices de escolaridade feminina, mulheres continuam enfrentando desigualdades significativas no mercado de trabalho, diferenças salariais persistentes e uma divisão desigual das responsabilidades domésticas e familiares.

Ao mesmo tempo, a Coreia do Sul enfrenta uma crise demográfica sem precedentes. Em 2023, a taxa de fertilidade caiu para 0,72 filho por mulher, a menor do mundo. O índice está muito abaixo dos 2,1 filhos por mulher considerados necessários para a reposição populacional. Desde meados dos anos 2000, governos sul-coreanos investem bilhões de dólares em programas destinados a estimular casamentos e aumentar o número de nascimentos.

Enquanto autoridades procuram formas de reverter o declínio populacional, parte das mulheres passou a questionar as condições que cercam a formação de famílias no país. Para muitas delas, discutir a queda da natalidade sem abordar desigualdade de gênero, violência contra mulheres, insegurança econômica e custos de moradia significa ignorar fatores centrais do problema.

O debate ganhou força em meio a uma série de casos que colocaram a violência de gênero no centro das discussões públicas. Feminicídios, perseguição por ex-companheiros, violência doméstica e crimes sexuais digitais impulsionaram protestos e fortaleceram movimentos feministas, especialmente entre mulheres mais jovens.

Um país em transformação

A Coreia do Sul costuma ser apresentada como uma das maiores histórias de sucesso econômico do século XX. Em poucas décadas, o país passou da pobreza provocada pela Guerra da Coreia para se tornar uma potência tecnológica e industrial. Empresas globais e a expansão da cultura pop sul-coreana ajudaram a consolidar sua imagem de sociedade moderna e desenvolvida.

Por trás desse crescimento, porém, persistem tensões que afetam de maneira particular a vida das mulheres.

Mulheres sul-coreanas carregam bandeiras com a palavra “feminista” durante uma marcha em Seul, em 8 de março de 2024, para celebrar o Dia Internacional da Mulher. | Foto: Jung Yeon-Je/AFP/Getty Images

Nas últimas décadas, a participação feminina no ensino superior cresceu de forma expressiva. Hoje, as mulheres sul-coreanas frequentam universidades em proporções semelhantes ou superiores às dos homens. O avanço educacional, entretanto, não se traduziu automaticamente em igualdade dentro do mercado de trabalho.

A Coreia do Sul continua registrando uma das maiores diferenças salariais entre homens e mulheres entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Mulheres também estão mais concentradas em empregos temporários ou de menor remuneração e enfrentam obstáculos maiores para alcançar cargos de liderança.

A maternidade representa outro desafio. Diversos estudos apontam que o nascimento dos filhos continua tendo impacto desproporcional sobre a trajetória profissional feminina. Muitas mulheres reduzem jornadas de trabalho, interrompem carreiras ou abandonam o mercado formal após o casamento ou a chegada dos filhos. Entre os homens, esse efeito é muito menor.

A divisão do trabalho doméstico também permanece desigual. Mesmo em famílias nas quais ambos os parceiros trabalham em tempo integral, mulheres dedicam mais horas aos cuidados da casa, dos filhos e de parentes idosos. Esse cenário levou pesquisadoras a descreverem a chamada dupla jornada, na qual o trabalho remunerado se soma às responsabilidades domésticas.

Durante décadas, casar e ter filhos eram considerados marcos naturais da vida adulta. Hoje, um número crescente de sul-coreanas questiona se os benefícios associados a esse modelo compensam os custos pessoais, profissionais e financeiros que frequentemente o acompanham.

As mudanças não ocorrem apenas entre as mulheres. Pesquisas mostram que jovens sul-coreanos de ambos os sexos estão adiando ou abandonando planos de casamento e maternidade. Custos elevados de moradia, competição intensa no mercado de trabalho, jornadas longas e insegurança econômica contribuíram para transformar a forma como as novas gerações enxergam relacionamentos e projetos familiares.

O resultado dessas transformações aparece de forma clara nos indicadores demográficos. A taxa de fertilidade sul-coreana caiu continuamente nas últimas décadas até atingir o menor nível já registrado no mundo. Em algumas regiões, especialmente na área metropolitana de Seul, os números são ainda mais baixos.

A resposta do Estado tem sido concentrada em programas destinados a estimular nascimentos. Governos sucessivos criaram subsídios financeiros, incentivos habitacionais e benefícios voltados para casais e famílias. Apesar dos investimentos bilionários, os resultados ficaram abaixo das expectativas.

Enquanto setores conservadores atribuem o problema à mudança de valores familiares ou ao avanço do individualismo, muitas feministas argumentam que a questão não pode ser separada das condições concretas enfrentadas pelas mulheres.

Mulheres participam de uma manifestação para celebrar o Dia Internacional da Mulher em 8 de março de 2024, em Seul, Coreia do Sul. | Foto: Chung Sung-Jun / Getty Images

Violência contra mulheres e misoginia

A discussão sobre desigualdade de gênero na Coreia do Sul não se limita ao mercado de trabalho ou à divisão das tarefas domésticas. Nas últimas décadas, a violência contra mulheres tornou-se uma das principais preocupações dos movimentos feministas do país.

Organizações de direitos das mulheres e pesquisadores apontam que casos de violência doméstica, perseguição por parceiros e ex-parceiros, crimes sexuais e assédio digital permanecem recorrentes. Embora os números variem de acordo com a metodologia utilizada, grupos de defesa dos direitos das mulheres alertam há anos para o aumento das denúncias relacionadas à violência praticada por homens contra mulheres.

Um dos episódios mais marcantes ocorreu em maio de 2016, quando uma jovem de 23 anos foi assassinada em um banheiro público próximo à estação Gangnam, em Seul. Segundo a polícia sul-coreana, o homem preso pelo crime declarou durante os interrogatórios que havia escolhido a vítima por sentir ressentimento em relação às mulheres, afirmando que elas o ignoravam e o desprezavam.

A polícia inicialmente tratou o caso como um ato isolado cometido por uma pessoa com transtornos mentais, mas milhares de mulheres enxergaram o episódio de forma diferente. Nos dias que se seguiram ao assassinato, a saída da estação Gangnam foi tomada por flores, bilhetes e mensagens deixadas por mulheres que afirmavam se identificar com a vítima. Muitas escreveram que a jovem havia sido morta simplesmente por ser mulher.

O local transformou-se em um espaço de luto coletivo e marcou uma nova etapa do feminismo sul-coreano. Para muitas jovens, o caso tornou visível uma sensação já presente havia anos: a de que a violência de gênero não era resultado de incidentes isolados, mas parte de um problema estrutural.

Mensagens deixadas na estação Gangnam, em Seul, em maio de 2016, homenageiam uma jovem de 23 anos assassinada em um ataque misógino. O feminicídio provocou indignação em todo o país e impulsionou movimentos feministas como o 4B. | Foto: Jung Yeon-Je, AFP

A indignação cresceu novamente com a exposição de crimes sexuais digitais que ganharam repercussão nacional. Entre eles estava o escândalo conhecido como Nth Room, revelado em 2020. A investigação mostrou a existência de uma rede de exploração sexual que utilizava aplicativos de mensagens para chantagear mulheres e menores de idade, obrigando as vítimas a produzir conteúdo sexual distribuído para milhares de usuários.

O caso provocou protestos, pressionou autoridades e reforçou críticas à forma como a violência digital vinha sendo tratada pelo sistema de justiça sul-coreano.

Outros escândalos também contribuíram para ampliar o debate. O caso Burning Sun, envolvendo celebridades, empresários e acusações de crimes sexuais, corrupção e distribuição ilegal de imagens íntimas, alimentou a percepção de que mulheres frequentemente encontravam dificuldades para obter proteção e justiça.

Ao mesmo tempo, organizações feministas passaram a denunciar o crescimento de crimes de perseguição. Muitas vítimas relataram ter procurado ajuda das autoridades antes de serem atacadas por parceiros ou ex-parceiros. Diversos casos de feminicídio ocorridos após denúncias prévias intensificaram as críticas às falhas dos mecanismos de proteção.

Infográfico: Kaitlin Burns via wildkats.org

O nascimento do feminismo digital

O fortalecimento dos movimentos feministas na Coreia do Sul coincidiu com a expansão das redes sociais e de comunidades online voltadas para discussões sobre gênero. Ao longo da década de 2010, plataformas digitais passaram a funcionar como espaços onde mulheres compartilhavam experiências de discriminação, assédio, violência e desigualdade que muitas vezes recebiam pouca atenção no debate público tradicional.

A internet permitiu que relatos individuais fossem conectados a problemas mais amplos. Experiências antes percebidas como casos isolados passaram a ser discutidas como manifestações de estruturas sociais que afetavam mulheres em diferentes contextos.

O movimento #MeToo teve papel importante nesse processo. A partir de 2018, denúncias contra figuras públicas, políticos, empresários e celebridades estimularam um debate nacional sobre assédio sexual e abuso de poder. Milhares de mulheres passaram a relatar experiências semelhantes, ampliando a visibilidade de questões que durante muito tempo permaneceram restritas ao âmbito privado.

Paralelamente, ganhou força o movimento conhecido como Escape the Corset, ou “Fuja do Espartilho”. Surgido entre jovens feministas, ele questionava padrões de beleza considerados excessivamente rígidos e onerosos para as mulheres. Participantes passaram a publicar fotos sem maquiagem, cortar os cabelos curtos e abandonar práticas estéticas vistas como imposições sociais.

A proposta consistia em questionar a expectativa de que mulheres deveriam investir tempo, dinheiro e energia para atender padrões de feminilidade que não eram exigidos dos homens na mesma intensidade. Essas discussões contribuíram para uma mudança gradual na forma como muitas mulheres enxergavam diferentes aspectos da vida cotidiana.

Nesse ambiente digital, novas comunidades feministas passaram a defender posições mais radicais sobre autonomia feminina. Algumas participantes argumentavam que reformas graduais não seriam suficientes para alterar estruturas que consideravam profundamente desiguais. Outras passaram a discutir a possibilidade de se afastar completamente de instituições que viam como centrais para a manutenção dessas desigualdades.

Entre as declarações que passaram a circular em comunidades ligadas ao movimento, uma se tornou particularmente conhecida por sintetizar a forma como parte de suas participantes enxerga a maternidade dentro de uma sociedade considerada desigual:

“Não darei à luz uma vida que discriminará meu gênero. Minha própria carne e sangue não devem se transformar em uma lâmina voltada contra mim. Se o mundo nascido do meu corpo me oprime, não permitirei que esse mundo exista.”

Um debate que encontra ecos no Brasil

Embora o movimento 4B tenha surgido em uma realidade social muito diferente da brasileira, parte das questões levantadas por suas participantes também aparece no debate público nacional.

Os números ajudam a explicar essa mobilização. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que os registros de feminicídio continuam em patamares elevados, enquanto casos de violência psicológica, perseguição e descumprimento de medidas protetivas seguem em crescimento. Em 2024, o país registrou 1.492 feminicídios e 3.870 tentativas de feminicídio, além de aumentos em diferentes modalidades de violência contra as mulheres.

A preocupação também chegou ao Congresso Nacional. Em 2026, a Câmara dos Deputados promoveu debates específicos sobre o avanço dos feminicídios e sobre propostas para criminalizar a misoginia. Durante as discussões, parlamentares, especialistas e representantes do governo argumentaram que, apesar dos avanços trazidos pela Lei Maria da Penha e pela Lei do Feminicídio, o Brasil continua registrando índices alarmantes de violência de gênero.

Para muitas mulheres, a questão nunca foi apenas dizer não ao casamento, à maternidade ou aos relacionamentos. A questão é poder dizer sim ou não sem medo, sem violência, sem desigualdade e sem que essa escolha determine o valor de suas vidas. Talvez seja por isso que, mesmo longe da Coreia do Sul, o debate provocado pelo 4B continue encontrando eco em diferentes partes do mundo.

Por trás dos chamados “quatro nãos” existe uma pergunta que continua atravessando fronteiras: que tipo de sociedade está sendo construída quando um número crescente de mulheres passa a enxergar a recusa como uma forma de proteção?

Nas ruas, mulheres exigem fim de mortes e criminalização da misoginia. | Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Fontes: A reportagem utilizou diversas fontes para o texto, sendo o principal, a tese das autoras sul-coreanas Jieun Lee e Euisol Jeong, publicada no Journal of Gender Studies em 2021. Confira aqui. Outras fontes podem ser encontradas aqui.

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